Moonlight e a busca por identidade

Um garoto preto franzino corre, está sendo perseguido, entra numa casa abandonada e se fecha num quarto escuro pra se proteger. Seu nome é Little (interpretado por Alex R. Hibbert). Essa é uma das primeiras cenas em Moonlight.

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Fugir e se esconder num local escuro é um dos sensos de autoproteção mais antigo da humanidade, a insegurança nos leva à escuridão, à solidão, e quase sempre essa fuga se dá no campo psicológico tornando esse “quarto escuro” um lugar dentro de nós, e assim figurativo, metafórico, nos tornando pessoas introspectivas, taciturnas, casmurras, e a pergunta que fica é: como sair desse lugar? Menino preto, pobre, filho de mãe adicta, pai desconhecido e dúvidas em relação a sua sexualidade, Little, o garoto preto, é uma presa fácil para a sociedade. E toda luta de Little/Chiron/Black em Moonlight é para sair desse “quarto escuro”.

Na sequência do filme Little é ajudado por Juan, que é interpretado impecavelmente pelo ator Mahershala Ali, ganhador do Oscar®2017 de ator coadjuvante pelo trabalho em Moonlight. Juan, traficante de crack, “tira-o” do quarto escuro e o leva para casa, sua namorada Teresa, vivida por Janelle Monáe (também incrível no papel) tenta sem sucesso conversar com o garoto, ele ainda está naquele “quarto escuro”. Little simplesmente come, come muito, come como se de alguma maneira soubesse que necessitava se fortalecer pra encarar uma grande jornada, enfrentar seus inimigos.

Juan e Teresa acabam virando uma espécie de família para o menino, o traficante é um homem forte, grande, tudo o que Little não é. Na praia, em uma das cenas mais belas do filme, Juan ensina-lhe a nadar, Little por alguns instantes parece sair daquele “quarto escuro”, aquele grande homem afável também o alerta para o fato de que uma hora ele terá que definir ‘quem’ e ‘o que’ Little desejar ser, isto é, sair desse “quarto escuro”. A mãe do garoto, Paula, interpretada pela magnífica Naomi Harris, que também foi indicada para o Oscar® 2017 de melhor atriz coadjuvante pelo trabalho em Moonlight, não aprova a relação do filho com o casal e entra em rota de colisão com Juan.

Barry Jenkins, o jovem e talentoso diretor do filme (é também corroterista), opta por dividir o filme em três parte ‘Little’, ‘Chiron’ e Black, que são, nessa ordem, a fase da infância, adolescência e vida adulta da personagem principal.

Na segunda parte, ‘Chiron’, reconhecemos o protagonista (agora interpretado por Ashton Sanders) pelo mesmo olhar triste da primeira parte, e ainda mais introspectivo, só que bem maior, um adolescente. Já sem a proteção de Juan, que fora assassinado, com uma Teresa bem mais frágil e uma mãe ainda mais afundada no vício de crack. Não há perspectiva de melhora na vida da personagem, Chiron ainda está naquele “quarto escuro”. Sua sexualidade indefinida o faz enfrentar um bullying violento na escola, franzino e frágil emocionalmente, não se sente capaz de enfrentar seus algozes. Seu único amigo é Kevin (interpretado por Jharrel Jerome), e é com ele que Chiron mais uma vez tenta dar um passo pra fora do “quarto escuro”, novamente na praia, lugar de longo horizonte e a sensação de liberdade sempre presente, ao contrário do “quarto” onde ainda se encontra. No entanto, ele é traído por seu amigo na sequência e essa traição gera um ato explosivo de Chiron, com consequências drásticas.

A terceira parte é ‘Black’, o nome que Chiron adota depois de sair do reformatório, Black (Trevante Rhodes) é o oposto das outras duas fases anteriores da personagem, é musculoso, confiante e chefe do tráfico, uma figura inspirada no homem mais poderoso que Black conheceu: Juan, até o carro que usa é igual ao do traficante morto. O toque de personalidade fica por conta de um protetor bucal dourado que ostenta, Black agora mora em Atlanta e sua mãe está numa casa de recuperação. Tudo parece estar sobre controle, contudo, aquele olhar triste indica que ele ainda está no “quarto escuro”. As coisas balançam novamente quando seu amigo Kevin (interpretado nessa fase por André Holland) volta para a vida de Black por meio de uma ligação telefônica, resolvem se encontrar e Black, definitivamente, parece começar a dar passos em direção à porta de saída do seu cativeiro metafórico que é o “quarto escuro”.

Moonlight não é esquemático, têm tomadas com a câmera agitada e balançando, em outras a imagem é fixa e tem planos demorados. As escolhas estéticas dialogam diretamente com o roteiro do filme, estão a serviço da história. As cores hora estão saturadas, hora estão sóbrias, enriquecendo o simbolismo presente na obra. Em alguns momentos o filme se torna lento, quase monótono, mas nada que fira sua grandiosidade. Ainda sobre a parte técnica, vale dizer que a trilha sonora é magnífica, e também fornece elementos para construirmos o universo das personagens, um bom exemplo é a música que esta na cena de abertura do filme: Every Nigger is a Star, (Cada Negro é Uma Estrela) de Boris Gardiner, cheia de referências ao ambiente onde a história se passa e metáforas para os conflitos de Chiron; Hello Stranger (Olá Estranho) de Barbara Lewis, tocando no momento que Black encontra Kevin no restaurante onde ele trabalha, a cena é repleta de silêncios e a música diz o que as personagens escondem no seu íntimo, lindo trabalho.

Moonlight é poético, sutil, cativante e nada estereotipado. Trata de temas polêmicos sem ser panfletário, sem ser apelativo e, principalmente, sem utilizar de sentimentalismos baratos. Moonlight é um valoroso estudo de personagem, uma personagem numa jornada em busca de sua identidade. O foco principal é Chiron, com seus medos, seus traumas, suas escolhas, seus afetos, sua cor e sua sexualidade, tudo isso no contexto de uma Miami mergulhada na “guerra das drogas”. As duas principais figuras masculinas na vida de Chiron o fazem pensar sobre quem ele é, Juan, como já citei, o instiga a pensar sobre isso ainda na infância, e Kevin também pergunta a Black: “Quem é você, cara?”, já na fase adulta, indagação que é o norte do filme.

E essa pergunta que Moonlight nos faz o tempo todo, por detrás da tela com aqueles olhos grandes e tristes do menino Little: Quem é você?

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