Pink Anderson: A Verdade Que Nunca Te Contaram Sobre Blues, Samba, Rock e Pink Floyd

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                                     Pink Anderson

Uma Dúvida Latente

Existe uma discussão em voga que vem e vai como a onda do mar, mais como todo bom tema latente e espinhoso, ainda não tem nenhum veredito: Rock é música de preto?

Colabore com a Agenda Preta

Bom bipolar que sou, afirmo categoricamente que não. Porém, na tentativa de não cometer anacronismos, entendo que há boas razões para afirmar que sim, especialmente quando penso na origem do gênero.

Não irei me alongar pois logo vou escrever somente sobre isso.

Entretanto, independentemente da resposta a essa pergunta ser positiva ou negativa, há de se trazer à discussão toda a contextualização social e a problematização do roubo cultural, intelectual e financeiro quando falamos de Jazz, Blues e do próprio Rock and Roll.

É de conhecimento popular que ao longo da história desses estilos sempre houve a prática comum da indústria da música, de afanar vida e obra de artistas negros, sobrando a eles quando muito, uma menção “honrosa” em uma coletânea caça-níqueis ou em um programa musical de terceira categoria.

Neste contexto histórico e sociocultural estabelecido, venho “apresentar” um mestre do Blues, que dada sua importância ao gênero não deveriam precisar de apresentações, estou falando do músico Pink Anderson.

Blues que ao contrário do rock, é muito preto em todos os sentidos!

Quem foi Pink Anderson?

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                   Pink Anderson

Nascido no estado da Carolina do Sul no ano de 1900, como grande parte dos músicos negros de sua época não se sabe muito sobre sua infância, além do fato dele ter sido autodidata no aprendizado do violão/guitarra, começando cedo a tocar Blues, Ragtime, folk e canções tradicionais, em troca de alguns tostões nas ruas e bares da cidade de Spartanburg, aos 16 anos.

Como guitarrista de diversas bandas ele excursionou por todo o sudeste americano entre os anos de 1915 a 1945. Não vivendo apenas de música ele pegava todo tipo de trabalho que lhe era ofertando, só assim seria possível se manter.

Além dos diversos trabalhos braçais que se submetia para a sobrevivência, Pink Anderson também aceitava, preferencialmente é claro, trabalhos artísticos como cantor, dançarino e comediante, todas atividades que exercia com maestria. Ele chegou a gravar em uma coletânea, quatro faixas de folk music entre os anos de 1928 e 1930, mas esse material nunca teve divulgação apropriada em seu período de lançamento.

Neste ritmo ele continuou trabalhando em feiras populares, circos e festas diversas até o ano de 1950, quando foi obrigado a parar por conta de problemas de saúde.

Seu retorno aconteceu no ano de 1961 com o lançamento de seu álbum de nome “American Street Songs” pelo selo Bluesville. Nos anos seguintes foram lançados pelo mesmo selo alguns discos ao vivo, gravados em festivais no estado da Carolina do sul.:

“American Street Songs”– (1961); “Carolina Bluesman. Vol. 1” – (1961); “Carolina Medicine Show Hokum and the Blues” – (1962); “Medicine Show Man. Vol. 2” – (1962); “Ballad and Folksinger. Vol. 3” – (1963); “Rev. Gary Davis & Pink Anderson (Gospel, Blues and Street Songs)” – 1963.

Diáspora Africana, Apropriação Cultural e Vanguarda

Além das semelhanças no desenvolvimento social e musical entre as composições na diáspora africana em muitas localidades do globo, há uma triste semelhança no anonimato e na necessidade de sobrevivência que perpassa a possibilidade de se viver plenamente de música.

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      Mestre Pink Anderson ensinando o Blues

Artistas negros, em grande maioria, não têm condições de estudar formalmente o ofício da música, gravar adequadamente e comercializar seus discos e shows de forma igualitária aos músicos brancos. Consequentemente eles nunca foram igualmente reconhecidos e bem remunerados, tanto no passado, quanto ainda nos dias de hoje.

Sendo assim, posso extrapolar tal inquietação para toda a sociedade ocidental, onde, ser descendente de africanos, e viver plena e decentemente como ser humano, parece utópico.

Se pegarmos como exemplo os sambistas cariocas podemos notar uma semelhança na história de vida entre eles e os músicos de Jazz e Blues americanos, que produziram música com qualidade, complexidade e vanguardismo, muitas vezes superior às produções vendidas pela indústria mainstream, mas dada a perversidade da indústria fonográfica, esses músicos de pele preta não têm serventia além da força de trabalho e exploração de suas qualidades musicais, e claro, posteriormente como “evocação de símbolos de afirmação” pós ressignificação e apropriação cultural. São transformados em meras escadas para medalhões pré-fabricados.

                                          Cantor e compositor Cartola

Exemplo disso é a expressão “samba de raiz”, sempre evocada quando algum músico/grupo/banda/balada/festa tem sua legitimidade colocada em cheque, porém pouco refletimos sobre a origem e real significado do termo. Uma das raízes do samba vem das religiões de matriz africana (umbanda, candomblé e etc.), as mesmas religiões constantemente segregadas e taxadas como demoníacas.

Tal fenômeno pode ser visto igualmente nos EUA na relação do Blues e do Jazz e suas raízes na religião Vodu, que tem muitos de seus signos também representados nos estilos Negro Spiritual e na Gospel Music.

Mas será que estamos mesmo pensando nisso quando usamos os termos samba raiz, músicas de raiz e etc? Quais seriam as outras raízes nunca mencionadas? Cabe reflexão no pé do travesseiro, não é verdade?

 Rio Nilo e  Rio Delta, Samba e Jazz, Rio de Janeiro e Mississípi. (Localizações Necessárias em Diáspora)

Sendo Pink Anderson um africano sequestrado vivendo em um país abertamente racista, tendo vivido uma vida dura e cheia de mazelas financeiras, tendo em sua história um sumiço por conta de doença, tendo sofrido uma desilusão com o mercado da música e sendo obrigado a ter trabalhos diversos fora dos palcos, até ser reencontrado, posso afirmar que qualquer semelhança com o músico carioca Cartola, não é mera coincidência, é fruto de uma exclusão social estruturada por uma sociedade colonial e doente a qual estamos inseridos.

                            Pink Anderson

Pink Anderson, assim como o sambista Cartola, gravou seus discos tardiamente, após os 60 anos de idade, e com mais uma “coincidência”, os poucos discos gravados por ambos não refletem a quantidade de repertório composto por eles ao longo de suas vidas, ou seja, raramente temos oportunidade de vivenciar a plenitude de artistas excluídos socialmente.

Dentre os amantes e especialistas em música negra da época, Pink Anderson era aclamado por sua vivacidade e qualidade técnica, sendo considerado um dos melhores no subgênero Piedmont Blues, ou East Coast Blues. Ele costumava utilizar a técnica chamada “finger-picking”, que de forma muito resumida é o ato de tocar o instrumento sem ajuda da palheta.

De forma muito mais simplista ainda, o coloquial e famoso dedilhado.
(Músicos, por favor me perdoem com tamanha simplicidade na descrição)

Assim como a história do Egito é contada através do desenvolvimento ao longo do leito do rio Nilo, o Blues pode ser contado de forma semelhante ao longo do leito do rio Delta no Mississípi, ou pelos trilhos do trem norte-americano.

Mas da mesma forma que o Egito não é o único centro de desenvolvimento social da raça humana em África, pois minimamente podemos citar o reino de Kush, o império Etíope e Núbia, como povos de semelhante grandeza e desenvolvimento. No Blues parte da sua história pode ser contada também de forma através da cidade de Chicago e da região de Piedmont, que é uma planície localizada ao oeste das montanhas de Apalache, área que se estende de Atlanta à Washington, onde o Ragtime, a country music e a folk music (especialmente celta)eram muito fortes. Essa somatória de fatores culturais podem ser parte responsável pelo nascimento do finger-picking”.

Pink Anderson “vira” Pink Floyd e o Descaso “Habitual” 

                                     Pink Floyd

O anonimato de músicos pretos promovido pelo mainstrem é útil para o bom andamento da indústria musical. Muitos músicos, assim como Pink Anderson, não são lembrados ou citados com dignidade por revistas ou livros do gênero, fato que considero maquiavelicamente pensado, pois não se pode dar visibilidade a quem é copiado e usurpado intelectualmente, caso contrário a ressignificação e apropriação cultural pode acontecer com falhas em sua legitimação.

Mesmo que haja um “desconhecimento e esquecimento” proposital, a influência musical de Pink Anderson é inegável e expressiva nas décadas de 1940 e 1950. Tanto que no ano de 1965, uma das mais famosas bandas da história do rock nascia em Londres e um de seus membros fundadores, Syd Barret, resolveu “homenagear” dois músicos de blues norte-americanos, Pink Anderson e Floyd Council, esta banda seria então conhecida mundialmente pelo nome de Pink Floyd.tumblr_o01dgw9sdi1uhzv0ao1_400

Faço menção honrosa à Floyd Council, mas me comprometendo publicamente a falar dele em um futuro breve. 

Pink Anderson é praticamente desconhecido do público em geral, pois mesmo a banda que carrega seu nome, nunca deu efetivamente alguma ajuda ao músico, ou fez menções formais a seu trabalho, para um possível resgate de sua vida e obra.

Não entenda isso como assistencialismo, mas reconhecimento e respeito. Poucos tem a dignidade de Mick Jagger e os Rolling Stones, que tem esse nome graças a uma música de Muddy Waters chamada “Rollin’ Stone”.

Os britânicos dos Stones sempre citaram com dignidade os músicos de Blues de Chicago, inclusive após terem alcançado sucesso, como reconhecimento a toda influencia e importância do Blues em sua música, Mick Jagger financia Muddy Waters, Willie Dixon e Howlin’ Wolf em sua primeira turnê na Europa, fato que alavancou novamente a carreira desses músicos e, consequentemente, grande parte da cena de blues americano.

               Muddy Waters e Rolling Stones

Tão Lendário Quanto…

Angenor de Oliveira, nosso querido Cartola nunca virou nome de banda de rock, mas quem tem um pouco de sensibilidade, sabe muito bem de onde vem a “inspiração” para aclamada bossa-nova, que de nova não tinha nada, basta deixar os preconceitos e anacronismos na gaveta e olhar para os morros cariocas com um pouco mais de respeito e analisar os fatos que não são secretos.

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                        Túmulo de Pink Anderson

Pink Anderson ficou ativo desde seu “retorno” em 1961 até o momento de sua morte no dia 12 de outubro de 1974, aos 74 anos de idade. Infelizmente não encontrei a causa mortis, fato que é corriqueiro ao se pesquisar a vida de músicos negros de Jazz e Blues.

Seu túmulo está localizado no cemitério Lincoln Memorial Gardens, na cidade de Spartanburg, Carolina do Sul. Não chego a sentir felicidade, mas fico alíviado dele não ter sido enterrado como indigente, como tantos outros músicos importantes do Jazz e do Blues norte-americano.

O rock é coisa de preto quando convém à estrutura social racista imposta em toda a extensão da diáspora africana, pois grande parte dos símbolos místicos e negativos do rock vem do Blues, reafirmando os fetiches doentios da sociedade ocidental para com África. A ignorância (desconhecimento) é sintomática ou hereditária?

Mesmo que a virtuose e toda a inovação musical também venham, conhecidamente, do Jazz e do Blues, elas só servem de muletas para pseudo validações intelectuais e masturbações mentais de uma indústria rasa, pouco criativa e arrogante, onde pouquíssimos músicos de rock na história tiveram condições de evoluir a música copiada no passado.

É de conhecimento geral que ainda hoje é prática comum afanar a vida e obra de músicos pretos, sobrando a eles, quando muito a famigerada menção honrosa em discos caça-níqueis. Pink Anderson merece muito mais do que ser o “Pink” da banda Pink Floyd, ele é um mestre, um mais velho que, nós filhos de África, temos que resgatar e enaltecer sua memória , celebrando eternamente sua existência. 

Sua música representa o desenvolvimento de África para além do continente, representa o poder de adequação e sobrevivência de um povo, representa o Blues Afro-americano e toda sua tradição através do “Bluesman”, figura icônica do imaginário metafísico africano que através da estrada de ferro norte-americana, como um Exú, trouxe ao mundo dos mortais toda a genialidade dos Deuses do Orum, fato até hoje incomparável por qualquer outro panteão do olimpo.

Com amor saúdo meu mais velho, mestre Pink Anderson, homem, que para mim, é mais lendário que o Pink Floyd, pois é raiz, não é galho. É Bluesman na essência.

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                                    Pink Anderson

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Mumu Silva

"Psico-Historiador", Afrofuturista, Consultor de Tecnologia, Colecionador de Discos e Quadrinhos, Pan-Africanista e Fotógrafo.

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