Guerra às Drogas: Guerra ao Povo Preto

Por Ágatha Miranda e Marcos Amaral*

Peguei-me olhando textos antigos, e encontrei uma crônica de dois anos atrás, na qual conto o dia em que estive na região da Luz para um ato contra a truculência das ações da Polícia do Estado de São Paulo, que especificamente naquela região agride, humilha e assassina pobres pretos usuários abusivos de crack. A gente sabe que o genocídio do povo preto está dado, convivemos com isso diariamente nas periferias, e, pasmem, na região central também.

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Eu conto, na crônica, que naquele momento, enquanto eu me dirigia à “assombrosa” Rua Helvétia, me dei conta do quanto desviei sempre de lá, e o quanto é impressionante uma rua carregar tantos estigmas, todos os estigmas que os playboys tem das periferias se expressavam ali, numa rua no centro da cidade. O que esperar de São Paulo? Uma das cidades mais racistas do mundo, como, com razão, sempre diz o mestre Mano Brown.

Um grande nível de exclusão, quase um encarceramento a céu aberto. A maioria esmagadora de pretos, que são chamados por vezes de “zumbis”. E é importante nos apegarmos a essa palavra, porque para nós, do Movimento Negro, a figura de Zumbi dos Palmares é reflexo de luta, resistência, revolta e força. Pô, o cara liderou o maior Quilombo desse país! Podem me dizer que a referência ao “zumbi” do usuário de drogas é, na verdade uma alusão aos zumbis das séries norte-americanas, esses são mortos-vivos, impossibilitados de tornarem-se humanos novamente. As duas possibilidades são terríveis, a primeira porque há um desejo de destruir as nossas referências de força e resistência através do imaginário social de descrédito de figuras importantes para nosso povo. A segunda porque nos faz crer na impossibilidade de existência do nosso povo, o que se faz com zumbis em séries norte-americanas? Mata-se com um tiro na cabeça.

Os jovens são os maiores usuários: Estamos num momento de efervescência da luta política no país, muito se fala do protagonismo da juventude no último período, principalmente devido ao processo de ocupação das escolas. É importante marcar também que a maioria de usuários de crack são adultos jovens, com idade média de 30 anos. A mesma pesquisa aponta que a grande maioria é de homens (aproximadamente 80%), e a maior representação é de homens negros.**

Destes, poucos concluíram o ensino médio, e a maioria não tem moradia fixa, o que demonstra uma situação de extrema vulnerabilização, que, por vezes, começa na adolescência desse jovens. O cenário não é muito diferente na vida das mulheres. No contexto de guerra às drogas, também se reproduz a lógica machista que violenta mulheres todos os dias. Arrisco dizer que, se essa política não se pautasse em racismo e machismo, não seria tão eficiente em ceifar nossas vidas. A quem tem interesse, é preciso que a estratégia da política de drogas no Brasil, seja violenta e justificável a partir de presunções e discursos discriminatórias: “foi presa porque era mãe e usava crack” ,”foi morto porque era preto, favelado”.

Recordo-me aqui de que, com a estratégia de controle político e negação, o governo norte-americano, aproximou, deliberadamente, a circulação de heroína em bairros negros para a desarticulação política do Partido Panteras Negras. É difícil não pensar que o crack, no Brasil, é produzido para dizimar nosso povo. Não somos nós quem produzimos a droga, muito menos quem a introduz nas periferias, ou em nossas vidas. mas somos nós que morremos por ela. Na guerra às drogas, para o Estado, o real inimigo a ser combatido é o povo preto.

O aprofundamento da vulnerabilização após o uso do crack é grande. Além dos efeitos psicossociais, os efeitos no corpo são destrutivos, numa realidade em que a maioria dos usuários fuma em latas de alumínio furadas, o que pode aumentar o nível de alumínio no corpo, bem como há queimaduras labiais recorrentes. Algumas pesquisas ainda fazem uma relação entre a incidência de DST´s e o uso de cocaína, dado que muitos trocam sexo pela droga, o que expressa alta taxa de soroprevalência.

Lembro-me que há dois anos, era implementado o Programa De Braços Abertos pela prefeitura de São Paulo, trazendo a lógica do cuidado, ao invés de práticas violentas, como a internação compulsória, proposta do Governo estadual paulista, – não à toa, o mesmo governo de atuação truculenta da Polícia Militar -. O Programa veio responder à luta antimanicomial e fez um esforço para cuidar em liberdade a partir da perspectiva da redução de danos, com trabalho e moradia. Não podemos esquecer das contradições da gestão anterior da Prefeitura que, por vezes, através da ação da GCM corroborou com a exclusão e vulnerabilização injustificadas.

De todo modo, vamos viver um momento de retrocessos no que tange ao cuidado dessa população, com o retorno das internações compulsórias, não só pelo Estado, mas também pela prefeitura de São Paulo.

Acredito que precisamos falar de legalização das drogas, particularmente não estou convencido do debate tal como ele é, geralmente, colocado nas Universidades: liberal, individualista e descontextualizado. O Movimento Negro precisa ser o protagonista desse debate, para darmos respostas de cuidado e acolhimento ao nosso povo, entendendo todas as contradições desse processo. Sabemos que o que está dado não nos cabe, a guerra às drogas, é guerra ao nosso povo. Precisamos do Povo Preto Vivo! E com dignidade, e viver com dignidade, é viver sem medo.

Que tenhamos fôlego!

*Ágatha é estudante de Direto e militante do movimento negro.

**Pesquisa Nacional sobre uso de crack e outras drogas no Brasil (FIOCRUZ, 2013)

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Marcos Amaral

Preto, gay, psicólogo social, mestrando em Psicologia da Educação pela PUCSP. Atua na área de políticas públicas, gênero, sexualidade e clínica. Filho das ruas da cidade de Osasco.

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