Ladrão, o Anti-Herói favorito da Terra do Sol

Foto de divulgação do álbum “Ladrão” por, Daniel Assis

“Se Glauber Rocha fosse vivo eu dava um filme, irmão…” É com esse verso da música Diáspora da finada D.V Tribo, que Djonga, rapper mineiro de 24 anos, faz referência direta a Glauber Rocha, diretor brasileiro percursor da mentalidade de vanguarda que revolucionou a maneira com que os filmes eram feitos no Brasil na década de 60. O que poderia ser apenas uma citação, continuou presente em um conceito sutil de conteúdos equivalentes em artes distintas, mas que se completam e se encontram em uma perspectiva atemporal da mesma temática.

Na semana em que Glauber Rocha faria 80 anos (Vitória da Conquista, 14 de março de 1939 — Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1981)Djonga soltou seu terceiro álbum de estúdio “Ladrão”, com ele deu continuidade à uma ideia abordada desde seu tempo no grupo D.V Tribo, o resgate de referências e a mesma linha de uma lírica rasgada e contemplativa.

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Glauber Rocha

Em uma década onde o cinema nacional reproduzia um estilo Hollywoodiano de filmagem e narrativa, Rocha foi a quebra de um paradigma com o aclamado “Deus e o Diabo na terra do Sol’’ de 1963. A crítica social feroz, além da inserção de novas técnicas e montagem para seus filmes, conquistando um estilo surrealista composto de influência do Concretismo (valorização da comunicação visual, sobrepondo o conteúdo). A narrativa de “Deus e o diabo..”, trata de duas formas de contestação social diante do descaso das autoridades, prejudicando as condições materiais de vida dos sertanejos: o messianismo e o cangaço, que representam, respectivamente, o Deus e o Diabo.

Filme de Glauber Rocha, 1963.

Apesar do filme se passar no interior da Bahia e fazer uma analogia à Guerra de Canudos, ela se aproxima mais do que imaginamos dos três álbuns lançados por Djonga“Heresia” (2017), “O Menino que queria ser Deus” (2018) e “Ladrão” (2019) configuram a atmosfera crua de anti-herói em busca de uma soberania e título de divindade, esse tom de pregação baseado em vivência, ancestralidade e fé, se encaixam perfeitamente no ponto de vista de Rocha e seu roteiro.

Twitter do rapper Djonga, onde ele se denomina “Deus”

A auto-denominação de Deus por parte de Djonga, advém do questionamento sobre o poder de um discurso que atinge uma massa. Apesar de ser passível de julgamentos, ele consegue promover um sentimento de representatividade da maneira mais crua possível, porém com camadas sutis de profundidade. A figura do novo Anti-Herói que carrega a luta do seu povo, e que “cospe” a realidade cruel de estar à margem da sociedade, do rebaixamento e da desvalorização é ressoante em ambas as obras de Djonga e de Rocha, mesmo que em estéticas distintas a concepção é trabalhada igual.

“É que eles têm medo do novo, A chama que acende o farol, Seremos Deus e o diabo na terra do Sol, na terra do Sol, Livres na terra do sol….” O medo do novo, é o mesmo medo que o público e a crítica tinha de “Deus e o diabo…”, o desconforto pela arte-denúncia e exposição, por isso o cinema pós Glauber Rocha foi denominado Cinema Novo.

Quarta faixa com participação de Felipe Ret

O nome “Antônio Conselheiro” que pode ser ouvido na faixa quatro “Deus e o diabo, na Terra do Sol” do álbum “Ladrão”, refere-se à Antônio Vicente Mendes Maciel, líder do movimento Messiânico* que reuniu milhares de sertanejos no arraial de Canudos no nordeste da Bahia. Através da fé, ele conquistava fiéis com suas pregações onde visava a construção da comunidade de Belo Monte, uma comunidade onde todos tinham acesso à terra e ao trabalho sem sofrer os castigos dos capatazes das fazendas tradicionais. Um “lugar santo”, em segundo os seus adeptos. Os grandes fazendeiros e o clero sentiam que seu poder estava sendo ameaçado, e com apoio do Estado (recém formado pela Proclamação da República em 1888), espalharam a notícia que conselheiro planejava um golpe para retornar com o Regime Monárquico onde ele seria o Rei e deteria dos poderes da realeza e do clero. (Fake News já pegava brasileiro desde 1890). Com isso a região de Canudos foi atacada várias vezes, estabelecendo a “Guerra de Canudos” com a vitória do Estado sobre os fiéis de Conselheiro e dizimando a população de Bello Monte, incluindo o próprio.

Para muitos, um rapper em 2019 fazer essa associação é um tanto bizarro, mas Djonga, cursou sete períodos do curso de História na Universidade Federal de Ouro Preto, onde todo os conhecimentos adquiridos no curso foram devidamente apropriados a sua música. O mesmo acontece com Glauber Rocha, em “Deus e o Diabo na terra do Sol”, ele propõe uma narrativa sobre o sertanejo sem esperança que larga da servidão para seguir um beato pelo sertão Baiano, sendo denominado “fora da lei” pela sociedade em que negro e pobre não deve ter nenhuma validação por sua voz. Glauber cresceu em Vitória da Conquista na Bahia, onde foi criado na religião cristã e experienciou uma Bahia pós-Guerra de Canudos.

Cena de “Deus e o Diabo na terra do Sol’’

É surpreendente perceber que o título internacional deste filme é “Black God” White Devil’’, ou seja Deus Negro, Diabo Branco. Onde existe a distorção e ressignificância de duas cores, onde Preto é sempre ruim e Branco o bom, em “Deus e o Diabo na…”, Santo Sebastião o beato pregador, negro numa representação de Antônio Conselheiro que, com seus dizeres, acaba incomodando o governo e a igreja tão ou mais intensamente do que o cangaceiro “Corisco”, o criminoso branco que acredita ser possível resolver todos os problemas do mundo com seu punhal. A Discussão que o título propõe parece estar unida ao reconhecimento da ausência de preceitos vinculadas a cor.

Versos do Perfil “Olho de Tigre”

Todo o reconhecimento de Djonga parte do “papo reto”, de ser alguém de prestígio que dá voz ao povo negro. Utilizando de seus versos, a política, a experiência e a sinceridade reproduz o sentimento de revolta com um tom quase anárquico, impulsionando os que se enxergam em suas letras. Ele é ciente dos seus processos de criação, e sabe que é necessário coragem e audácia pra soltar certos versos em uma sociedade passível de julgamentos, onde mais da metade não absorveu muito menos digeriu seu conceito. E parte da sua crítica, é destinada ao público composto por uma maioria branca que consome sua música, pagam seus shows, mas não encontram lugar de fala em suas letras. É papo de negro pra negro, de gente que sofre pelo racismo visível da sociedade, mas ele consegue compreender que a arte atinge quem tem de atingir, esse poder é paralelo ao poder da fé e da sua obtenção de seguidores, que credibilizam seu manifesto, e faz com que seja ouvido até por quem ele não contempla.

“Tá contada a minha estória 
Verdade e imaginação 
Espero que o sinhô 
Tenha tirado uma lição 
Que assim mal dividido 
Esse mundo anda errado 
Que a terra é do homem 
Num é de Deus nem do Diabo (bis)”

Por: Isabela Carolina Rosa/Twitter: @babooshhhka

Agradecimentos ao Thiago, Marllon, Erick e Felipe pelo estímulo, só força!

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Junior Rocha

Preto, amante de tecnologia, política, cultura e cerveja. Fundador da Agenda Preta e de outros projetos que ainda não existem.

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