Sobre palavras, Stela e Cleide

“Eu não queria me formar/ Não queria nascer/ Não queria forma humana/ Carne humana e matéria humana/ Não queria saber de viver”

© Joao Caldas Fº

A cena teatral preta brasileira tem sido efervescente, muito mais por méritos de uma geração talentosa e engajada do que por ações estruturantes do Estado, esses artistas que lutam por espaço e representatividade são as novas referências para as futuras gerações, artistas como Naruna Costa, Jé de Oliveira, Grace Passô, entre outros, reúnem múltiplos saberes e agrada público e crítica.

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Mas, como bem nos disse Dra. Jurema Werneck, médica e feminista, “nossos passos vêm de longe”, e o espetáculo Palavra de Stela, um monólogo em cartaz em São Paulo, traz a excelente atriz Cleide Queiroz, que tem passado e presente dedicados ao teatro.

Cleide tem mais de 50 anos de palco, toda uma vida dedicada a arte de interpretar, a atriz estreou em 1969 na Companhia Paulo Autran e, desde então, vem trabalhando em teatro, televisão e cinema.

O espetáculo Palavra de Stela é um ato de desembaraçar um fio bastante emaranhado, um fio sutil e rico, esse fio é a vida e o pensamento de uma artista perturbada por transtornos psicológicos e que passou mais de 30 anos em instituições psiquiátricas, Stela do Patrocínio.

No palco somente Cleide Queiroz, um gravador, uma cadeira, alguns objetos espalhados e muita criatividade, o espetáculo transborda poesia e oralidade, porque Stela é palavra, palavra patrocinada, como diria ela. A intérprete tem uma fala limpa, um domínio absoluto sobre sua voz, suas nuances vocais são soberbas, Cleide brinca com a voz o tempo todo, canta, declama, grita, protesta, a voz perfeita para palavras mais que perfeitas. Cleide é, por si só, a poesia.

A atuação é, sem dúvida, o ponto mais forte de Palavra de Stela, o palco quase nu é preenchido com a performance vigorosa de Cleide que esbanja energia por quase uma hora de espetáculo que passam sem que o público sinta.

A dramaturgia também é muito feliz na montagem, o texto traz em sua composição trechos retirados do livro “Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”, livro de Viviane Mosé que organizou as falas poéticas de Stela gravada em fitas cassetes durante a década de 80 na Colônia Juliano Pereira, onde era interna, e também trechos de músicas e escritos de outros autores. Esses trechos parecem flutuar no ar acima de nossas cabeças ao longo da apresentação e Cleide vai magistralmente pegando um a um e nos apresentando com uma verdade comovente.

©Tiago Barizon

A musicalidade é outra força de Palavra de Stela, com músicas que ajudam a pintar esse quadro de loucura, genialidade, humanidade e dor. Cleide canta ao vivo e canta muito bem, do fado à MPB, do popular ao erudito.

Stela do Patrocínio que teve a existência negada por um sistema de controle de corpos e mentes pretos é visibilizada e corporificada brilhantemente por Cleide Queiroz. O espetáculo Palavra de Stela merece ser visto por Cleide e merece ser visto por Stela.

Se você gosta da boa poesia tem o dever de assistir, se você não gosta de poesia precisa ver porque é a chance de se apaixonar por Stela do Patrocínio, por Cleide Queiroz e, consequentemente, pela poesia. Imperdível.

Serviço: Palavra de Stela

Teatro Zanoni Ferrite
Até 14/07
Sextas e sábados às 20h | Domingos às 19h
Avenida Renata, 163 – Vila Formosa | São Paulo/SP
Entrada gratuita
Classificação indicativa: 14 anos




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André Santos

Jornalista, ator e diretor do Coletivo Favela em Cena.

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